sábado, 16 de março de 2013

Introdução ao Passo da Guanxuma



A primeira vez que a cidade imaginária Passo da Guanxuma apareceu num conto meu foi em "Uma praiazinha de areia bem clara, ali, na beira da sanga", escrito em 1984 e incluído no livro Os dragões não conhecem o paraíso. Naquele conto é narrado o assassinato de Dudu Pereira, que volta a aparecer aqui. Em outras histórias, voltou a aparecer o Passo, até que assumi a cidade, um pouco como a Santa Maria dejuan Carlos Onetti. Este texto, de 1990, pretendia ser o primeiro capítulo de um romance inteiro sobre o Passo, tão ambicioso e caudaloso que talvez eu jamais venha a escrevê-lo. De qualquer forma, acho que tem vida própria, com o estabelecimento de uma geografia e esses fragmentos de histórias quase sempre terríveis respingados aqui e ali como gotas de sangue entre as palavras.


À memória de
Erico Veríssimo
que acreditava em mim


Por quatro pontos pode-se entrar ou sair do Passo da Guanxuma. Vista de cima, se alguém a fotografasse — de preferência numa daquelas manhãs transparentes de inverno, quando o céu azul de louça não tem nenhuma nuvem e a luz claríssima do sol parece aguçar em vez de atenuar a navalha do frio solto pelas ruas, com o aglomerado das casas quase todas brancas no centro, em torno da praça, e as quatro estradas simétricas alongando suas patas sobre as pontas da Rosa dos Ventos — e ao revelar o filme esse fotógrafo carregasse nas sombras e disfarçasse os verdes, a cidade se pareceria exatamente com uma aranha na qual algum colecionador tivesse espetado um alfinete bem no meio, como se faz com as borboletas, no ponto exato em que as quatro estradas se cruzariam, se continuassem cidade adentro, e onde se ergue a igreja. A torre aguda da igreja seria a cabeça desse alfinete prendendo no espaço a aranha de corpo irregular, talvez disforme, mas não aleijada nem monstruosa — uma pequena aranha inofensiva, embora louca, com suas quatro patas completamente diferentes umas das outras.



Leste: os plátanos

Os românticos e sonhadores, esses que imaginam vidas vagamente inglesas, de paixões contidas, silêncios demorados e gestos escassos mas repletos de significados, preferem a estrada do leste. Ela vai subindo da cidade em tantas curvas que as pessoas são obrigadas a diminuir a velocidade, tanto faz que andem a pé, a cavalo, de automóvel ou bicicleta, até chegarem ofegantes na alameda de plátanos. Lá, onde já não existem casas, fora um ou outro rancho perdido no campo entre capões de eucaliptos, a estrada começa seu caminho em direção a Porto Alegre. Os plátanos são muito altos, dos dois lados da estrada, e as folhas superiores, de ambos os lados, quase chegam a se misturar, formando uma espécie de túnel — que mesmo antes do filme com Doris Day, grande sucesso do Cine Cruzeiro do Sul, ganhou o nome de Túnel do Amor. No final de maio, a luz do sol deitando no horizonte oposto bate oblíqua nas folhas douradas e vermelhas caídas no chão e nas que ainda restam nos galhos cada vez mais descarnados para revestir inteiro de ouro o Túnel do Amor. Forra-se de prata também, nas noites de lua cheia, principalmente as de Câncer, Leão ou Virgem, em pleno verão, quando as árvores já recuperaram as folhas e, no auge do verdor, preparam-se para perdê-las outra vez. Novamente entrelaçadas nas copas altas, dispondo sombras, noite alta elas conspiram a favor daqueles namoros considerados fortes e de certas amizades estranhas, como aquela que durante anos uniu a Tarragô filha do vice-prefeito à alemoa Gudrun da revistaria.
Mesmo que nada mais existisse lá, só o Túnel seria suficiente para que os apaixonados do Passo preferissem essa estrada a qualquer outra das três, mas há outras razões. Tomando-se uma picada de terra batida à direita de quem vem da cidade, pouco antes da alameda, chega-se à casa de Madame Zaly, cartomante, vidente e curandeira respeitada por todo o Estado e, dizem mas ninguém prova, a aborteira mais hábil da cidade, com seus devastadores chás de arruda e outras tisanas. Madame Zaly, cega de um olho coberto por venda preta e estranho sotaque — alguns juram que peruano, outros francês, indiano os mais delirantes, mas para os heréticos mera língua presa — também planta girassóis e se alguém lhe perguntasse por que, certamente explicaria, sacudindo as muitas pulseiras de ouro, que é nativa-do-signo-de-Leão-e-os-leoninos-precisam-do-solem-todas-as-suas-formas. Nas tardes de verão, quando os girassóis escancaram as pétalas amarelas em volta da casa de tábuas também amarelas de Madame Zaly, de dentro do Túnel do Amor pode-se ver aquele exagero de ouro respingado em gotas sobre o verde do campo. E quando, de dezembro a março, alguma moça volta ao Passo com um girassol dos grandes nas mãos, ou dos pequenos nos cabelos, todo mundo fica logo sabendo que ela foi ou ver o futuro ou matar uma criança. Foi assim que Dulce Veiga certa vez entrou na cidade de tardezinha, pouco antes de ir embora para sempre, um girassol dos pequenos entre os cabelos naquele tempo ainda castanhos, lisos, caídos abaixo da cintura, tantos anos atrás, quase ninguém lembra sequer que ela era de lá.


Norte: as sangas

Menos romântica e mais erótica, porque no Passo amor e sexo correm tão separados que até as estradas refletem isso, é a pata estendida em direção ao norte. Do vale onde fica a cidade ela sobe áspera, em linha reta até o topo da coxilha da zona do meretrício. Aqui, assim como Madame Zaly reina a leste com seus estranhos poderes sobre as plantas e os destinos, quem brilha soberana sobre a carne e os prazeres é La Morocha, uma paraguaia meio índia de olhos verdes estreitos de cobra e cuia de mate novo sempre entre os dedos cheios de anéis. O mais vistoso deles, dizem, uma serpente de prata com olhos de rubi autêntico, mas dizem tanta coisa no Passo sobre as vidas alheias, teria sido presente do próprio lendário prefeito Tito Cavalcanti, quase trinta anos no poder, que a teria trazido ainda petiça lá dos lados de Encarnación. Passada a meia dúzia de casas dos domínios de La Morocha, só a dela de material, com parreira nos fundos e hibiscos vermelhos na frente, à esquerda e à direita do outro vale em que a estrada do norte afunda num pontilhão de madeira, estendem-se os lajeados e a sanga Caraguatatá. De águas fresquíssimas no verão e gélidas nas manhãs de inverno,  cobertas por uma camada de geada tão fina que dá a impressão de que bastaria soprar leve na superfície para rachá-la em cacos e ver os lambaris do fundo.
Essa, claro, é a estrada preferida da bagaceirada do Passo. Nas noites de verão dizem que a soldadesca, os rapazes e até senhores de família, médicos e vereadores costumam arrebanhar o chinaredo das pensões de La Morocha para indescritíveis bacanais na beira dos lajeados, com muita costela gorda, coração de galinha no espeto, cachaça, violão e cervejinha em caixa de isopor. Depois dessas noitadas a areia branca da pequena praia da sanga Caraguatatá amanhece atulhada de brasas dormidas, pontas de cigarro, restos de carne mastigada, algum coração de galinha mais fibroso, camisas-devênus úmidas, tampinhas de garrafa, restos de papel higiênico com placas duras e, contam em voz baixa para as crianças não ouvirem, às vezes algum sutiã ou calcinha de cor escandalosa, dessas de china rampeira, alguma cueca manchada ou sandália barata de loja de turco com a tira arrebentada.
Ao cair da tarde, principalmente em janeiro quando as famílias direitas buscam o frescor da sanga, a tradição manda os maridos irem na frente para limparem
discretamente as areias, enquanto as senhoras se fingem de distraídas e diminuem o passo, sacudindo as toalhas sobre as quais vão sentar, que Deus me livre pegar doença de rapariga, comentam baixinho entre si, mas algum guri metido sempre acha alguma coisa nas macegas. Os lajeados são muitos, a sanga Caraguatatá desdobra-se secreta e lenta entre pedras, algumas tão altas que podem ser usadas como trampolim, e para quem tiver coragem de entrar pelo mato cerrado onde, dizem, até onça tem, revela praias de águas cada vez mais cristalinas, que pouca gente viu. Numa delas, certa manhã de setembro, Dudu Pereira foi encontrado morto e nu, a cabeça espatifada por uma pedra jogada ao lado, ainda com fios de cabelo grudados, lascas de ossos e gotas cinzas de cérebro.


Sul: o arco

Em direção ao pampa e ao Uruguai, além do pobrerio da Senzala espalhado em malocas de telhado de latão, há o quartel do Passo com a Vila Militar Rondon ao lado, sempre com alguns cariocas de fala chiada e meio sem modos, todo mundo acha. Tinha que ser mesmo perto das malocas, costuma dizer com desprezo dona Verbena Marques de Amorim, quase todo ano segunda colocada na lista das dez mais elegantes do Passo, perdendo sempre para alguma carioca rebolativa, exagerada nas pinturas e balangandãs, afinal carioca não pode viver longe da favela. Mas a Senzala não tem lata d'água na cabeça, samba ou tamborim. Nos baixos úmidos até em tempo de seca, a piazada barriguda cata agrião e girinos pelos banhados e, dizem, até mesmo algum sapão rajado para feitiço de Madame Zaly, um pila cada, enquanto negrinhas adolescentes pulam cercas de arame farpado, de preferência em noite de lua nova, trouxa nas costas, para atravessar a cidade a pé e cair de boca na vida do lado oposto, nas pensões de La Morocha. Algumas se regeneram antes de pegar doença incurável de macho e vão se empregar com senhoras de sociedade, feito a Lisaura Sônia de Souza, que depois foi primeira e única Miss Mulata Passo da Guanxuma, casou com coronel reformado e hoje até bingo canta aos sábados no Círculo Militar, mas não passa nem da porta dos fundos do Clube Comercial.
Viveiro de domésticas, pedreiros, jardineiros, benzedeiras e mandaletes para a cariocada da Vila Militar Rondon, ninguém sabe bem como, a cada agosto, a Senzala sobrevive aos surtos de tifo, meningite e tudo que é peste ruim. Mais do que pela vontade de Deus, todo mundo acha que é mesmo por artes santas da Gorete dos Lírios,  estuprada e degolada aos nove anos de idade, a cabeça sem corpo, de olhos abertos e sorrindo afogada entre tufos de copos-de-leite no banhado, em ano que ninguém lembra quando e nem mesmo se realmente houve. Padroeira de todos os maloqueiros, basta acender vela branca em noite de lua cheia ao lado de açúcar branco, que toda criança adora, mais nove copos-de-leite, a idade da santinha, colhidos de fresco — e todas as preces são atendidas. O padre nega, mas dizem de fonte segura que corre beatificação no Vaticano, até bispo já andou fazendo rol de milagre.
No alto da coxilha, com a Vila Militar dentro, o quartel parece um pequeno castelo medieval, principalmente por causa do arco branco na entrada, que pode ser visto desde a praça central, longe dali. Acontece cada coisa, dizem, entre os oficiais de fora e a soldadesca do Passo, tudo rapaziada farrista e sem vergonha, mas nunca esclarecem que coisas, só dizem Deus-me-livre revirando os olhos se alguém insiste um pouco. Logo após o arco suavizado em muros caiados de branco em torno do quartel e da vila, a estrada se desagrega nuns descampados de cupins, unhas-de-gato, pitangueiras magrinhas, ásperos gravatas e pedras branquicentas, entre as quais rastejam mortais cruzeiras, que só mesmo a soldadesca fazendo manobras se atreve a enfrentar. Diz que passatempo preferido de milico com mira boa é apontar justo onde, na testa da cobra, os dois braços da cruz se cruzam, quem acerta vira lenda, como virou Biratã Paraguaçu, morenão que depois foi pro Rio viver em Copacabana com padrinho capitão.
O arco branco é o ponto mais alto daquele horizonte. Para quem vem das bandas do Uruguai, de certa curva na estrada, a primeira imagem do Passo é exatamente a torre da igreja bem no centro desse arco, atravessando-o feito seta apontada para o céu. Além de aranha, dizem pois, o Passo da Guanxuma é também o corpo de um guerreiro tapuia enterrado entre vales e coxilhas, tão valente que nem mesmo embaixo da terra conseguiram arrancar-lhe das mãos o arco e a seta.


Oeste: o deserto

Para a fronteira com a Argentina estende-se a última pata da aranha. O deserto, apenas o deserto, um ondulado deserto de areia avermelhada que o vento sopra fazendo e desfazendo as dunas que ameaçam a única coisa que ainda resta por lá: cercado por cinamomos cada vez mais raquíticos, distante da estrada mas nem tanto que não possa ser visto, com sua piscina — a única do Passo — em forma de cuia de mate, ergue-se o que ainda resta do palacete de Nenê Tabajara, o estancieiro responsável, dizem, por todo aquele areai dos infernos que em dia nem muito longe até açude teve. Veneno demais na plantação, monoculturas, coisas assim, todas do mal, e como Deus castiga, agora que perdeu quase tudo em dívida de jogo e hipoteca, o deserto avança sobre seu último refúgio sem que ele tenha para onde fugir. Sozinho no casarão roído pelos ventos, a piscina seca há anos, Zezé passa o dia inteiro olhando as fotos da filha Eliana, a mais linda das sete que teve, e as outras seis, espalhadas pelo mundo, não querem saber dele — sem chorar, de joelhos, os olhos secos vermelhos da areia que entra pelas frestas, não de lágrima. Numa madrugada roxa de outubro, uivando feito gata no cio, cabelos ruivos desgrenhados até a cintura, Eliana Tabajara, a mais linda moça que o Passo já viu, foi vista vagando inteiramente nua, as coxas tingidas pelo vermelho do próprio sangue, falando sozinha no meio do deserto, inteiramente louca. Dizem que até hoje vive, sem dentes, a cabeça raspada, pele e osso, num hospício em Buenos Aires, outros que já morreu, e aquele vulto branco gemendo pelas areias nas madrugadas é seu espírito sem paz, deflorada pelo próprio pai, dizem também, mas ninguém prova nada.

*

Isso é o que se conta, o que se diz, o que se vê e não se vê, mas se imagina do Passo. De tudo, o mais real, salpicadas entre as quatro patas da aranha — no meio dos girassóis do leste, à beira dos lajeados ao sul, pelos descampados do norte e até mesmo entre os vãos mais sombrios das areias a oeste —, o que mais tem em qualquer tempo de seca ou aguaceiro, calorão ou friagem, são touceiras espessas de guanxuma. Por mais que o tempo passe e o asfalto recubra a polvadeira vermelha das estradas, transformando tudo em lenda e passado, por mais sujas e secretas as histórias sussurradas pelos bolichos, entre rolos de fumo preto e sacos de feijão, por mais que por vezes o tempo pareça não andar, ou andar depressa demais, quando as antenas de tevê e as parabólicas começam a interferir entre o arco e a torre, exatamente por causa da planta, de dois males jamais sofreu, sofre ou sofrerá o Passo. De distúrbios estomacais, que chá de guanxuma é tiro e queda, nem de pó acumulado, que os ramos servem para fazer vassouras capazes de assentar até mesmo a poeira daquele deserto próximo que sopra e sopra noite e dia sem parar e, dizem, dizem tanto, ai como dizem nesse Passo, nunca pára de crescer.

In: Caio 3D: o essencial da década de 1990. Rio de Janeiro: Agir, 2006, p. 155-162.
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